cap.1 – a volta.
por Camila Peres
Não sou muito boa para contar histórias apesar de ter sempre idéias para colocar em algum papel abandonado no fundo da minha bolsa. Apesar da minha resignação em que me encontro, no exato momento em que me sento para escrever, as palavras fogem de mim e eu simplesmente fico absolutamente dispersa. Não obstante o motivo ao qual eu escrevo estas linhas não é a ficção. Aliás, ainda me pergunto por que decidi escrever sobre isto. A minha história. Tenho uma tia que costuma dizer que toda a mulher deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Creio que este seja o motivo. Tentar completar a última missão de “ser mulher” segundo ela. Não sei exatamente se as mudas de árvores que plantei sobreviveram, ao menos sinto que esta tarefa foi cumprida. Quando ao filho, bem, digo, filha, tenho uma linda garota prestes a completar seus sonhados quinze anos. Seu nome é Amanda. Sou publicitária. Até o último mês eu era apenas uma publicitária em uma agência em Porto Alegre. E quando eu digo era, significa que acabo de ser promovida a gestora de publicidade na nova filial, em Pelotas.
Pelotas. Já faz tanto tempo que sai desta cidade, que já não tenho certeza se ainda sei andar pelas ruas sem me perder. Quase treze anos. É o cargo que eu sempre almejei dentro da empresa, mas agora já tenho dúvidas se realmente o desejo. Voltar a Pelotas é de certa forma voltar ao meu passado, e eu não tenho certeza se isso é bom ou ruim.
Marcos também não recebeu a notícia com o mesmo entusiasmo. A pouco ele também conseguira a promoção na agência onde trabalhava o que formava um grande problema: ele definitivamente não iria comigo para Pelotas.Estávamos juntos a uns seis anos. E era a primeira vez que tivemos uma briga como aquela. Creio que os vizinhos escutaram tudo entre o meio e o final, que acabou com ele saindo de casa e batendo a porta forte o suficiente para derrubar o feng shui atrás da porta. Se ele não queria deixar o emprego, porque eu haveria de deixar? Ao fim, no outro dia, conversamos civilizadamente. Não encontramos uma solução exceto a de que não queríamos terminar. Apesar de estarmos juntos há tanto tempo, nós não vivíamos como casados. Marcos morava na casa dele, eu na minha. Marcos viajava muito, e a princípio eu não levei muito a sério, depois, já estávamos tão habituados assim que decidimos manter. Amanda recebeu a notícia com sorrisos e lágrimas. Apesar de triste por se afastar dos amigos, da capital e de Marcos – que eram muito amigos – ela não podia negar a felicidade de estar junto à família, junto ao pai, com quem era tão apegada.
Em nossa separação, Willian e eu nunca brigamos como muitos pais costumam fazer. Brigaríamos menos se eu não tivesse me mudado para Porto Alegre, mas ele sempre pode visitá-la em casa, ou levá-la para passar as férias com ele. Nunca interferi no direito dele de ser pai, e as decisões importantes sobre Amanda eram sempre tomadas em conjunto. A euforia dela foi tanta que assim que eu terminei de falar com ela, ela ligou para ele, segurando o celular e pulando ao mesmo tempo, enquanto contava a notícia a ele.
Quando Amanda me deixou sozinha na sala eu liguei para minha irmã e enquanto o telefone chamava, fui para meu quarto. Ela imediatamente perguntou sobre Marcos. Acabei chorando no telefone enquanto contava sobre a nossa briga. E ela, apenas fez com que suas palavras me acalmassem como se ela estivesse ali me abraçando. Carla é minha irmã mais velha. A quarentona como minha filha a apelidou neste ano.
O primeiro passo foi ir à Pelotas procurar um apartamento. Por sorte, Amanda e eu tínhamos gostos parecidos e concordamos com um apartamento no oitavo andar na zona central, para a felicidade dela a duas quadras de um dos mais conhecidos pubs da cidade. Não foi difícil vender o apartamento em Porto Alegre. Depois comuniquei à direção que estaria me mudando no final do mês. O processo de encaixotar as coisas levou mais tempo do que eu me programei. E quando percebi o sábado no qual eu partiria já era o próximo. Eu passei muito tempo com Marcos. Muito mesmo. Amanda estava de férias escolares e aproveitou o máximo com as amigas. Iam a festas, faziam dormidões. Acabou que minhas amigas se juntaram em um mutirão na sexta para me ajudarem a terminar. Algumas coisas ficaram, seria mais proveitoso comprar novas. Essa foi a desculpa para eu comprar uma cama Box e uma TV dessa nova geração. LCD, 32”. O sonho de consumo da Amanda para jogar vídeo-game, o meu para ver filmes. Na verdade a desculpa do mutirão foi para fazer uma janta, beber muito vinho e falar bobagens, tudo entre mulheres apenas. Quando Marcos chegou todas nós ainda estávamos dormindo no sofá, ou nos colchões agrupados na sala.
Despedidas a parte, depois dos abraços e das lágrimas, partimos. Fomos no carro do Marcos. Com o caminhão de mudanças nos seguindo. Aproveitei para trocar de carro também. Chegamos, descarregamos tudo e fomos jantar na casa da minha irmã. Cansados, chegamos em casa de madrugada, tendo que desembalar os colchões (me arrependi de ter deixado o meu para trás, pois Marcos e eu tivemos que dormir no colchão da bicama) e nos acomodarmos de qualquer jeito pelas peças. A bagunça logo se desfez. Fiz questão de aproveitar aquele momento maluco que é a arrumação. No domingo quando Marcos foi embora abracei-o forte na garagem e beijei-lhe. Segundo Amanda foi um beijo de dar inveja às despedidas de Hollywood. Mas a verdade é que eu não queria que ele fosse. Para completar recebi uma visita extremamente inesperada, ao menos naquele momento. Willian chegou com pizza e com seu bom humor. Trouxe-me um vinho de presente para brindar a casa nova. Éramos amigos afinal. Mostrei-lhe a casa e conversamos. Depois fui para meu pseudo quarto enquanto ele conversava e jogava videogame com a Amanda. Aproveitei aquela semana de folga para arrumar as coisas, e ir à praia. Apesar de inapta para o banho, a praia do Laranjal ainda era uma ótima pedida para caminhar e ver o sol se por. Coisas clichês, mas que eu não me cansava em fazer.
Quando eu cheguei ao trabalho desejei que aquela sala com o monitor cheio, digo, coberto de post-its rosas e amarelos não fossem a minha. Devo acrescentar aqui que os primeiros momentos não foram muito agradáveis, mas quando os “problemas” foram colocados em dia, finalmente pude apreciar meu trabalho. A essa altura minha casa já estava perfeita, tudo nos lugares, até mesmo as plantas na sacada e um celta preto na garagem. Vou ser sincera e dizer que ainda faltava furar a parede e colocar as prateleiras, o que eu aproveitei a visita de minha irmã e meu cunhado para que ele me ajudasse com isso. Quando as aulas começaram não demorou a Amanda fazer amizades e não tardou para minha casa ser o point das meninas para fazer dormidões e jantas.
Ainda não mencionei que minha mãe veio logo depois de minha chegada. Ela estava tão contente por ter a família em torno de si novamente que por alguns instantes ela me fez esquecer que eu havia brigado com meu pai. Não uma briga qualquer em que se fala coisas sem querer e sim o tipo de brigas que faz com que você nunca mais deseje ver a pessoa, no caso, meu pai. Nos últimos quinze anos eu falei com ele apenas o necessário. E a visita de minha mãe me fez pensar exatamente naquilo que eu queria evitar.
Meu pai é um homem tradicional, exigente e orgulhoso. Político aposentado. Na verdade para explicar o motivo pelo qual brigamos é imprescindível que eu conte, ainda que breve um pouco sobre ele. Durante a época da censura no país, meu pai era do partido Arena e havia um jornalista que o perseguia. Inimigos a parte foi justamente com o filho deste homem que eu viera a namorar, casar e logo em seguida engravidar. Meu pai nunca me perdoou por isso, e apesar de eu sentir muito sua falta eu não me arrependo te ter vivido os melhores anos de minha vida com Willian. E é assim, com um pensamento puxando o outro que eu novamente me deparo com minha separação. Não porque eu não tenho superado, mas sim porque até hoje ainda há alguns pontos que eu não consegui entender sobre o que nos levou a brigar e conseqüentemente nos separarmos. Carla diz que é porque eu ainda o amo e é por isso que eu não me casei de novo. Eu argumento que não é por causa disso. Will e eu já tivemos algumas oportunidades para reatar, mas desde o verão de 1992, deixo claro que Willian e eu nunca mais estivemos juntos.





1 comentário | comente »
eu até pensei em não comentar, mas gostei de mais pra deixar passar em branco.. parabéns, espero ansiosamente pelo proximo capitulo.
bjs